• Amaro ★

Conto Irmãs Amaro

São gêmeas. Nasceram de um ventre materno do qual a vida se esvaiu e, que em troca, fez morada nos corações das meninas. Nasceram e morreram na epidemia, tomadas por pensamentos sobre a mãe que nunca conheceram. Não tiveram uma figura feminina ou materna na infância e na adolescência, alguém para se espelhar e pedir conselhos. Criavam e recriavam a mãe todos os dias em suas mentes ouvindo as histórias que nunca vivenciaram. Tiveram uma infância entre sombra e solidão, entre luz e chuva, cobertas de histórias e pensamentos. Têm uma forte relação com a chuva, talvez porque a mãe tinha também e elas querem ter o próprio vínculo com ela, talvez porque a chuva lava a alma dos desesperançosos e renova suas energias ou talvez porque em Lúgubre chove muito e elas brincavam nas poças da rua. Elas vivenciam seu primeiro luto. O luto que nasceu com elas, o luto da saudade desconhecida, o luto da dúvida se foram elas as causadoras da maior perda de suas vidas.


As figuras masculinas que acompanharam a infância eram bem diferentes entre si. O patriarca tinha uma postura rígida e submersa no trabalho, ele estava presente nos jantares da família, acompanhava as notas na escola e não perguntava como tinha sido o dia das crianças ou o que tinham aprendido. Ele nunca superou a morte da esposa e a epidemia em si. Preferia não pensar, não ser tomado pelas emoções. O irmão mais velho era o oposto do pai, cuidava e brincava com as meninas passando para elas tudo o que aprendeu com a mãe: alegria, união e amor. Não gostava de falar sobre a epidemia ou sobre o medo que sentiu e as dificuldades que passaram. Falava da mãe no presente e apenas coisas boas e assim as meninas aprenderam a evitar as conversas difíceis e a esconder a realidade que as cerca. Por fim, o carteiro enxerido chamado Jardim, um senhorzinho alegre e contador de histórias. Participou da vida das Amaro contando sobre a mãe, todas as suas aventuras e desventuras, e como elas estavam parecidas com ela. Além disso, adorava escutar as novidades que as meninas tinham pra contar.


Quando crianças, as Amaro passavam o dia olhando pela janela esperando alguém chegar. Esperando algo acontecer. Uma notícia, uma carta, um bilhete, uma visita, uma morada. Até que chegou o segundo luto. Elas tinham 11 anos e foi o Seu Jardim que deu a notícia. Seu pai havia sofrido um acidente de carro e não sobreviveu. Tudo o que elas lembram daquele dia é uma grande névoa, pessoas cumprimentando-as no velório, o pai deitado no caixão com uma serenidade no rosto que nunca tinham visto. Talvez ele estava feliz em reencontrar a esposa, era isso que elas queriam acreditar. Naquela noite, os novos órfãos de Lúgubre deitaram na cama de seus pais e choraram. Choravam pelos mesmos motivos, choravam por razões diferentes, mas principalmente porque não sabiam o que tinham que fazer, estavam perdidos. Essa foi a única vez em que falaram abertamente de seus medos, angústias e tristezas, depois disso o irmão mais velho não permitiu que as meninas vivessem no passado e tirou forças das antigas palavras da mãe para seguir em frente.


A família tentou se reerguer, alguns moradores da cidade ajudavam como podiam e o irmão mais velho administrava a herança que veio com a perda. Aos olhos das meninas ele se tornou um adulto, não brincava mais com elas, não contava mais histórias e estava mergulhado no trabalho, elas só não sabiam que entre uma atividade e outra ele chorava, olhava para o céu e pedia ajuda aos pais. As Amaro tiveram que amadurecer, deixaram de brincar e se esforçavam para não dar trabalho ao irmão, mas ainda olhavam com esperanças pela janela e quando chovia deixavam chover dentro delas também.


As garotas, que eram meninas e estavam se tornando mulheres, vivenciaram o terceiro e último luto quando tinham 16 anos. Era uma noite fria em Lúgubre, o irmão pela primeira vez em muito tempo tinha decidido ir em uma festa com os amigos, a Amaro de cabelos loiros e curtos disse que ficaria em casa e a Amaro de cabelos escuros e longos disse que estaria na rua com alguns amigos. Eram aproximadamente três horas da manhã. Estava garoando. Amaro ouviu pessoas gritando e barulho de sirene. Ela saiu para a rua para saber o que estava acontecendo e viu a fumaça. A fumaça saindo do lugar em que seu irmão estava. Correu. Correu como se sua vida dependesse disso e mal sabia que, realmente, dependia. Correu e foi barrada de entrar e salvar a vida do irmão. Perguntava para os seguranças o que tinha acontecido, chamava pelo nome do irmão, gritava por ele como se isso fizesse com que ele encontrasse a saída, mas ele não encontrou. A garoa não teve forças para apagar o fogo, ela se misturava com as lágrimas e suor que também não conseguiam apagar o fogo, porque ele vinha de dentro e asfixiava suas vítimas.


Ela se sentia asfixiada como se uma parte dela tivesse morrido junto com ele. Não conseguia voltar para casa, ficou na porta do lugar até o fogo apagar, até os bombeiros e a polícia confirmarem o número de mortos, até encontrarem os documentos que comprovam que o corpo dele estava lá, mas sua alma já tinha ido. Eram nove horas quando chegou em casa e encontrou a irmã dormindo no sofá. Depois de verbalizar a ela o que tinha acontecido tudo ficou em câmera lenta, elas estavam vivenciando mais uma vez a perda, a impotência e o luto. Os próximos meses passaram como se fosse um borrão em suas vidas. Olhavam para o céu pela janela clamando por respostas, chovia dentro delas todos os dias e não encontravam forças para seguir, mas seguiram.


Passaram a viver sem propósitos, sem sonhos, sem desejos. Viraram as costas para o mundo assim como o mundo virou as costas para elas e se fecharam em si mesmas, estabeleciam relações profissionais e só. Começaram a trabalhar, uma de confeiteira e a outra de professora. Poucos cidadãos de Lúgubre as ajudavam nesta época, pensavam que elas já estavam acostumadas e não eram mais crianças. As Amaro eram confundidas na rua e não se importavam, elas perderam a individualidade e também não se importavam, estavam presas a mesma rotina. Elas aprenderam a evitar conversas difíceis, a não falar dos medos, tristezas e angústias que sentiam. Portanto, quando conversavam eram das alegrias da infância, das histórias escutadas ou das trivialidades do cotidiano, entretanto uma sabia exatamente o que a outra estava sentindo e nesses momentos elas se permitiam deitar na cama dos pais e se libertar desses sentimentos.


Todos os lutos vividos fizeram com que elas vivessem em um limbo entre a concretude da morte e o desejo/medo de viver. As irmãs sobreviviam em uma sub-existência com momentos de recaídas e recuperações. Porém, algo em seus âmagos clamava por mudança, continuavam olhando pela janela e chovendo com a chuva.


Até que um dia uma carta é entregue na casa delas gerando novos sentimentos e, pela primeira vez, segredos entre as irmãs. Começa a nascer a possibilidade da individualidade, de uma existência a sós.


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